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19 de setembro de 2013

Aprendizados



Naquela manhã, ela abriu os olhos e ouviu as gotas na janela. O céu era cinza e escuro. Um pássaro cortou as nuvens rapidamente e desapareceu. O cachorro marrom deitou-se no tapete da porta, atento aos rumores.

Na rua, as árvores debatiam-se nos seus galhos e  a enxurrada cobria o asfalto para logo desaparecer.

Olhando para a chuva, ela não podia impedir-se de admirar o dia. A ternura converteu-se em um sorriso generoso.

Era tempo de esperar  o sol das manhãs vindouras.

18 de setembro de 2013

a poesia dos meus dedos



hoje a minha alma ecoa um som terno que atravessa o ar e vem ao coração, assim simples, assim bom, para que tudo seja mais humano e a gente não desista.
hoje o meu coração agradecido foi depressa e devagar e, finalmente, transformou-se numa tamanha confusão, numa tamanha alegria que parece impossível terminar!
há uma canção que me soou como a chuva fina numa vidraça, como a um vento leve no alto do arvoredo, como a uma fonte de água brotando na imensidão das serras e das nascentes.
um livro!
eu sempre acreditei que houvesse poesia em meus dedos.

16 de setembro de 2013

De distrações e de saudades


A solidão neste vilarejo não é de todo tão ruim, embora meu coração se feche ao transbordamento exuberante das coisas. Há algo de indolente nas flores que se abrem pelas manhãs. Desvio-me, frienta que sou, das abelhas que flutuam entre as folhas e os tufos amarelos perfumados. A igreja lembra-me uma aldeia medieval agradável e o jardim entrecruzado da pracinha oferece belezas ingênuas e indescritíveis. Assim como a ninfa Eco habitava os bosques e os montes, hoje dedico-me a distrações. Direi a última palavra, eco entre os rochedos da montanha, nunca a primeira. Onde ecoará a minha voz? Respiro confusa de ideias e fantasias e devoto algumas lágrimas neste meu retiro sob a força das distâncias. Ah, espíritos enganadores! Se pudesse espelhar a minha alma na água cristalina das fontes de minha terra! Como fazem-me falta as pequenas familiaridades! Ou tenho alguma esperança, ou não tenho nenhuma! Que triste figura narcísica hoje estou! 
[ De quando vivia distante de minha terra]

15 de setembro de 2013

o vazio habitado



e então espalhei sementes,  gesto poético de quem  nada entende de infinitos, de sol, ou de milagres. eu olhava o gênero humano e descobria o preço excessivo pelo encantamento dos vazios e dos sentimentos invisíveis.
porém, aqui de onde escrevo nascem os rios, as manhãs, os livros.  as trovoadas empurram o céu para  que venha a chuva  e eu observo o vento ao longe a entreter os ares.  aqui estão ao alcance dos afagos, os suspiros incansáveis, o coração habitado em poesia.
entre os labirintos da vida, em meio às palavras impronunciáveis, sobrevivo à cor da terra. venho do amor tecido sob meus pés, de raízes, de silêncios recurvos e brandos.
espero com devoção o movimento dos amarelos e as pétalas jorrando em luz. eu que desacreditei de tudo, vejo-me diante da obstinada coreografia dos dias, a invejar  os  girassóis.

11 de setembro de 2013

reflexos brancos e frios no inverno da montanha e um verso oculto



A manhã invade o tempo e escoa  sob meus pés. Lembranças respingam no silêncio da  memória. O nevoeiro desce pela mata adormecida e aninha-se perto das águas.
Vem caindo há dias inteiros a chuva, enquanto mastigamos as horas. Só agora posso ouvir a tua voz que vem dali, no vento que te acompanha.
Depressa, andas. Protejes tua cabeça que o teu corpo esfria  e, quando quiseres, olhas-me. Plantarei lírios brancos, rosas, a hortelã do campo.
Os pássaros cantam junto ao murmúrio das nascentes, borboletas pausam distraídas na cor da tarde. Procuram secretamente os ecos escritos nos rastros da lua.
Apressas-te, iluminas a tua face mansa. Quando as sombras incandescentes curvarem-se sobre o horizonte, novamente colherei  estrelas nos meus dedos à deriva dos teus olhos.

10 de setembro de 2013

a escritora


Não sou jovem. Sou só um pouco alegre. Muito atrapalhada! E séria. Não sou nada prosa, só escrevo. Ah, estou feliz sim, um pouco! - me perguntaram. Minha pele é ótima. Se eu escondo os vincos e as experiências. Meus vícios são versos e fontes. Não tenho semelhanças com pedras. De noite invento brancos. Sobre o nada calculo poesias. Tudo me espanta. E a saudade encolhe-me os ombros. De manhã sou assim. Prosa. E passo. Que nem brisa.