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16 de setembro de 2013

A lenda da chuva


No regaço das nuvens descansavam os anjos. Longas eram as suas asas brancas e seus cabelos negros como as noites sem luar.

Receberam os anjos uma missão: plainar sobre a terra e entre árvores, e entre olhares e arroios, e por entre brisas e alguns carinhos. Deveriam despertar o cheiro de rosas com cuidado, entre dois corações.

Desceram à procura, atentos às dimensões dos corpos de mãos dadas, procurando pelas vidas que passam, aprendendo a linguagem do lugar e suas leis.

Miraram a paisagem, estudaram os princípios, correram invisíveis entre as casas, deslizaram sobre o leito de rios serenos, ou nas tormentas das madrugadas.

Dois corpos vieram através de um caminho. Uma alma ia. A outra vinha.

Os anjos estremeceram. Invocaram cantigas e sonhos, estrelas de um plácido lugar. Cantaram em coro, os anjos, e entre parreirais, e entre figueiras, e entre flores de pessegueiros, e entre as pedras das ruas, iam cantado os anjos porque viram dois corpos que passavam, leves como a sombra que passa, silenciosos em suas próprias recordações.

Os anjos postaram os olhos nos olhos do corpo que vinha e do corpo que ia. E suspiraram os anjos, e entrelaçaram os dedos, felizes, e ternamente entoaram a canção do amor eterno para os corpos que passavam. Era a missão deles.

Os corpos que iam e vinham cruzaram-se pelo caminho. Olharam-se. E não se reconheceram. Continuaram seu rumo incerto, seus vestígios, suas mãos e seus passos pelo caminho.

Os anjos perderam-se de suas direções. Seus versos desaprenderam a memória cantada. O dia prolongou-se imóvel na sua perfeição mais pura. Imobilidade nos amanheceres seculares. Silêncio nas asas do mundo. Nas bocas dos anjos. Nos corações dos anjos.

Contemplaram os anjos, os dois corpos que se cruzaram, mas não se reconheceram. Não reconheceram o amor.

E assim, contemplando o amor nascido morto, os anjos choraram pelo que deveria ter sido e não foi.

Recostados nas nuvens, não suportaram as águas nos olhos: infelizes os anjos verteram lágrimas sobre a face da terra.

Um murmúrio de gotas em ventos suaves nas folhas, em riscos agarrados a grandes trovões no céu se ouviu. A chuva cumpriu-se áspera e às vezes serena à margem da vida.

E o amor, de cinza se recobriu. 
[Schultz, Rita. Brisa. in A lenda da chuva. Scortecci, 2013, p. 71]

1 de setembro de 2013

setembro



Aprendemos que a natureza se repete, que as estrelas nos orientam, que há tempo para plantar e para colher, que o sol e a chuva, as flores, os frutos, o frio e o calor sempre vêm e vão em nossa vida.

O  inverno aqui nas montanhas é marcado por geadas ao amanhecer que transformam a paisagem. Os raios solares infiltram-se entre os caminhos. Os dias são curtos e a noite desce mais cedo. As folhas  do ipê desprendem-se das árvores, o vento é gelado e, assim como nós, os animais se recolhem e hibernam nas noites em que uma fogueira é alegria cobiçada.

Então setembro se repete.  É tempo de construir ninhos. Borboletas, abelhas, beija-flores e sempre-vivas dão o ar de sua graça. É doce a viração nos pessegueiros. É  néctar, é vida que ressuscita.

Setembro sempre vem!  A gente até suspira as mais bonitas canções nas manhãs de primavera. E vai!

30 de agosto de 2013

a mulher que passa


Todo o tempo que tem passa distante do mundo. Anda por lugares longes, sobe montanhas, desce alturas perigosas. E caminha entre árvores, e colhe flores e esquece as lágrimas. O pensamento flutua como as sombras das folhas e afunda como as pétalas no riacho. Perde-se em devaneios, distraída, e retorna a si, monótona, quando os dias tornam-se comuns. Não tem outro vestido e ninguém a quem agarrar-se. Por vezes enfrenta os escuros, abraçando as cores da saia. Palavras exageradas saem das pontas de seus dedos, e escreve todos os seus defeitos de herança no papel em branco. Só para fugir da punição das horas. Conhecida pela ingenuidade, vive debruçada no silêncio a indagar segredos, os pés descalços, as mãos vazias. E por não querer gerar despedidas, projeta-se sempre em abraços a desenhar os motivos da vida.